Querida

agosto 18, 2008

 

É fato que a vida nos apresenta obstáculos. Além disso, é de amplo conhecimento que é mais fácil reclamar, ver o lado negativo da realidade, do que apreciar o que temos. Prova disso é essa constante busca por mais, pelo melhor, pelo que não temos.

Aqueles que usam a consciência como instrumento de vida estão, até certo ponto, fadados ao desapontamento. Nós enxergamos aquilo que poucos vêem. Nós sofremos com os males que presenciamos, mesmo que estes não sejam direcionados a nós.

Mas, de tempos em tempos, surge uma lente cor de rosa que insiste em embaçar a vista. Você continua vendo tudo, percebendo aquilo que é praticamente imperceptível a olhos nus, mas a perspectiva se transforma. As cores tornam-se mais vibrantes, a melancolia passa a ser lição de vida. As contradições do ser humano passam a ser objeto de estudo, material para escrita.

Uma conversa regada a álcool deixa de ser um programa banal para transformar-se em uma troca de experiência e de almas. Um olhar torna-se uma cumplicidade de quem se entende, de quem percebe as coisas além do que elas se mostram. Uma troca de mensagens já não são mais palavras vazias, desperdiçadas ao serem jogadas no mundo. Não é algo que mal foi escutado , porque afinal, se muitos  não enxergam, outros pouco memorizam aquilo que lhes foi dito.

O mundo continua a ser mundo, permanece nos assustando com a sua grandiosidade, mas passamos a ver saídas que não percebíamos antes, encontramos esperanças para sairmos desbravadores pelo universo afora, fortes, confiantes em nós mesmos, e sem medo de encarar o que está por vir.

Gostaria de poder informar onde se pode comprar esse artefato, mas não é possível. Ela não pode ser procurada, e de tal forma, não pode ser achada. Ela simplesmente surge, em um encontro inesperado, de um jeito que não se entende. Não há como desenhar um mapa para encontrá-la. Mas, lhe garanto que  se o mundo continua mundo, tudo tem seu local e sua hora, e certamente, sua lente aparecerá quando você mais precisar.

II

agosto 18, 2008

Jogar é uma arte. No alto da minha solteirice, constatei que aqueles que dominam esse elemento tão comum em um começo de relacionamento devem ser reverenciados. Eu confesso, sou péssima. Mando bem em Banco Imobiliário, Buraco e talvez, dependendo do estado alcoólico, em truco.

Comecemos do inicio, o famoso esperar o telefone tocar. Tenho preguiça disso. Sou do tipo de pessoa que gosta de agir, que costuma fazer as coisas acontecerem. Não costumo colocar minha vida nas mãos do destino ou de pessoas alheias. Mas todo jogo tem suas regras, e as dos relacionamentos definitivamente não são iguais as minhas.

A base do famoso joguinho é que você não pode mostrar interesse maior pela pessoa, tem que deixá-la insegura, fraca, e aí, e somente aí, dar o bote. É estratégico no último grau, o cúmulo do War. Você deve saber quando, onde e como atacar. E ainda assim, tem que contar com a sorte, que os dados soprem a seu favor,  tem que torcer para que o timing esteja certo, para que o cara esteja disposto a encarar algo, para que você o encontre em um dia que não esteja acompanhada, e até mesmo, que os dois estejam aptos para conversar e não jogados embriagadamente em algum canto da balada.

O problema é, você não sabe se a pessoa está jogando ou não. O cara pode não ligar porque também não quer mostrar interesse antes da hora. Ele pode estar blefando e  se você não entender as regras pode entender como falta de interesse e desistir. Declarar game over, apertar reset e iniciar uma nova partida, diga-se de passagem, com outro jogador.  Ou ele pode simplesmente não estar interessado e você, por querer algo, vê o que quer. Insuportável. Motivo para adquirir uma gastrite, um caso clínico de stress.

É como jogar Imagem e Ação com alguém que não sabe, você está vendo uma pessoa passando todos os sinais, ela querendo que você decodifique a mensagem, mas você simplesmente não consegue. Ela pode pular, se jogar no chão, apontar todos os objetos possíveis, mostrar quantas palavras são, não importa. Você não entende. Por sinal, já falei o quanto me dou mal em Imagem e Ação?

Ironicamente, há um jogo chamado Verdade ou Conseqüência. Na minha humilde opinião, se falamos de relacionamentos temos a verdade e a conseqüência, juntas, andando de mãos dadas. Se falarmos a real, que curtimos o cara, que queremos ver ele de novo, bom, conseqüentemente podemos também ver um ser correndo a 200 km por hora em direção a qualquer lugar longe de você.

Então, qual o melhor caminho a seguir? Penso que se a opção for fazer o que der na telha deve-se estar preparada para arcar com um possível pé na bunda. Mas talvez funcione, talvez o cara também não goste de jogos e estava apenas esperando  o sinal verde para depositar todas as fichas dele em alguém.

Se decidir continuar no mundo da jogatina, bom, o lance é ter paciência, treinar a cara de blefe e só desistir quando o oponente jogar a toalha. E somente se isso acontecer.

O maior erro que cometi em minha vida foi cortar franja. Não, eu não estou de brincadeira. E sim, eu sei que é um corte clássico. E particularmente, modéstia à parte, combina muito bem com o meu rosto. Mas então, por que erro? Porque tenho que apará-la a cada duas semanas, e isso significa que a cada 15 dias  acabo me deparando com a “Caras” ou com alguma revista do gênero no cabeleireiro. Não há nada mais deprimente do que ler Caras. E não porque relata sobre a vida dos ricos e famosos e porque percebo que não sou tão intelectualizada como gostaria de ser. Mas sim, porque esse tipo de revista ressalta todos os meus temores e tristezas sobre relacionamentos. Toda primeira edição do mês há 3 novos casais, lindos, relatando seu começo, dissertando sobre a delicia do amor, enchendo meu coração, um tanto quanto cético ultimamente, de esperanças que conto de fadas existe sim, e que filmes românticos são espelhos da realidade.

Pois bem, passam 15 dias e lá estou eu de novo, com a franja praticamente me cegando,  e me deparo com aqueles mesmos casais agora separados. Aqueles que há pouco se amavam para a eternidade estão disparando declarações para outras pessoas, outros contam a maravilha de estar sozinhos nesse mundo, e alegam que o sentimento declarado anteriormente foi insanidade temporária, ou pior, golpe de marketing. Então, penso eu: Meu deus, quando é mesmo a minha terapia?

Você pode achar que é piada mas não é. Que mundo é este que as pessoas viraram produtos? “Ah, não me traz mais o resultado esperado, vou tentar outro, um mais loiro, menos alto, menos dramático, que more mais perto da minha casa, que a mãe seja menos chata.” Socorro! Seria engraçado senão fosse trágico. Ou talvez seria trágico senão tivesse virado tão banal.

Resumiu-se tudo em apenas uma palavra: banal. Impressiona-me a casualidade dos relacionamentos, a banalidade dos sentimentos. Confesso ter inveja de quem se desapega tão facilmente quanto se apega a alguém e de quem não persiste muito tempo na fase de comer montanhas de chocolate e de escutar músicas depressivas depois de um término de namoro.

Já eu saio descabelada pelas ruas, choro quando assisto comercial da Credicard, pago uma fortuna na analise e no celular, já que ligo para todas as minhas amigas para lamentar sobre a vida.

Das duas uma, ou o mundo muda, ou o mundo me muda. Enquanto isso, estou deixando a minha franja crescer e sigo procurando uma passagem de avião para outro mundo, já que este obviamente não quer parar para eu descer. Mais uma vez, e quem quiser grite comigo, socorro.